Boneca Blythe

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Tempo de Criança


Inserida ao Programa Museu Vivo – olhando o passado e construindo o futuro, criado em 2008 pela museóloga Ana Lúcia Uchoa Peixoto nas comemorações dos 85 anos da Fundação Instituto Feminino da Bahia, esta exposição faz um recorte do universo infantil, lúdico e subjetivo, produzido através do brincar, a partir da coleção de trajes, assessórios, brinquedos, suportes lúdicos, fotografias e postais, do período de transição entre os séculos XIX e XX, além de instalação cenográfica e recurso de comunicação visual que cria um lugar de memória.

A memória da infância está sempre associada a um momento significativo de alegria conduzido por um universo lúdico, mágico, imaginário e subjetivo, produzido através do brincar. Entretanto, a tentativa de mergulhar nesse universo representado por trajes, assessórios, fotografia, brinquedos e outros suportes lúdicos, exige de nós espectadores uma reflexão a cerca do contexto histórico, social e cultural em que a criança estava inserida.

Os trajes e assessórios que compõem esse universo infantil se comportam como código de leitura e signos de adesão e/ou exclusão social. O vestir e a veste podem ser identificados como elementos utilizados para moldar o comportamento da criança e definir os papéis sociais e, sobretudo, de gênero na sociedade. No universo feminino percebe-se que não havia muita distinção entre o modo de vestir da mulher, da criança e da boneca. Em todas as fases da vida o traje feminino se pautava no principio da sedução através das rendas, bordados e fitas, predominantemente brancos em sinal de pureza, como estratégias de conseguir matrimônio e, conseqüentemente, inserção na vida social.

O uso do branco em sinal de pureza faz-se presente ainda nos ritos de iniciação e passagem cristão-católicos representados na exposição através das roupas de batismo, usadas em ocasião dos primeiros sacramentos, cujos modelos, até então, não faziam distinção de sexo. Do mesmo modo, nas vestes de primeira comunhão, celebração que marca o recebimento do Corpo e Sangue de Cristo sob a forma de pão e vinho, o predomínio do branco acompanha também os assessórios como bolsas, terços e missais, que seguirão a menina na vida religiosa.

Os suportes e práticas lúdicas também desempenham um papel significativo na transmissão de regras e padrões comportamentais. Para as meninas, o exercício das atividades domésticas se dá através de panelinhas, fogõezinhos, ferrinhos de passar, louças e móveis em miniatura, bonecas e bebês utilizados nas brincadeiras de casinha, comidinha, mãe ou professora. O universo do menino relaciona-se sempre à força, agilidade e virilidade através de bolas, cavalos, peões, soldados, carros e revolveres, moldando o homem de ação para o trabalho de inteligência e enfrentamento. É nesse contexto que se insere a preferência pelo traje de marinheiro usado pelos meninos até meados do século XX.

Contudo, é importante entender a criança não apenas como sujeito passivo à espera da modelação dos adultos. As práticas lúdicas possibilitam a subversão da ordem estabelecida por regras de conduta social, ampliando as possibilidades de interpretações e representações próprias do mundo metafórico e subjetivo da criança, capazes de interferir no processo de transformação da história e da memória coletiva.

O brincar cria o lugar de enlace metafórico entre a criança e o seu mundo. Entretanto, surpreender o tempo e brincar, hoje, é um ato de extremo desafio frente a avassaladora rede e aparatos tecnológicos que invadem a vida da criança anestesiando o corpo e tendem a apagar a memória do brincar pelo excesso paradoxal de estímulos oferecidos em um ritmo veloz e instantâneo, através de suportes mitificados, quase totêmicos, de conseqüências, ainda não estudadas.

Por Marijara Queiroz
Museóloga


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIM, Walter. Reflexões sobre a criança o brinquedo e a educação. São Paulo: Ed. 34, 2002.
OLIVEIRA, Ana Karina Rocha de. Museologia e Ciência da Informação: distinções e encontros entre áreas a partir da documentação de um conjunto de peças de ‘Roupas Brancas’. Dissertação (mestrado). São Paulo: ECA/USP, 2009.
REIS, Adriana Dantas. Cora: lições de comportamento feminino na Bahia do século XIX. Salvador: FCJA; Centro de Estudos Baianos da UFBA, 2000.
TEXEIRA, Maria das Graças de Souza. Infância, o sujeito brincante e as práticas lúdicas no Brasil oitocentista. Tese (doutorado). Salvador: FFCH/UFBA, 2007.


VISITAÇÃO
10 de outubro a 15 de novembro de 2009
Terça a sexta de 10h às 12h e de 13h às 18h e sábado de 14h às 18h
Valor: R$5,00 e R$3,00
Fundação Instituto Feminino da Bahia
Rua Mons. Flaviano, 02, Politeama, Salvador Bahia

CONTATOS: (71) 3329-5522/5520 ou museu@institutofeminino.org.br

segunda-feira, 2 de novembro de 2009